simplesmente acontece
o que aprendi com as borboletas e as lagartas
Foi numa tarde quente no fevereiro pré pandêmico de 2020 que me sentei para conversar sobre o fascinante universo das borboletas com meu querido amigo Guilherme Atencio.
Guilherme é doutor em Entomologia, a área da Biologia (dentro da Zoologia) que estuda os insetos, e tem dedicado suas pesquisas a esses seres lindos de asas coloridas que tanto encantam.
Nessa nossa conversa, aprendi o quanto as borboletas podem nos ensinar, muito além da clássica analogia com transformação.
Por exemplo, ao saírem da crisálida em seu processo de metamorfose, as borboletas ficam um tempo com suas asas estendidas, quietinhas, esperando secar para só depois voar. Se tentar voar, ela não vai conseguir, porque as asas estarão moles ainda.
Isso me faz pensar que, assim como elas, também nós precisamos respeitar as fases das nossas mudanças, dos nossos ciclos, e não exigir de nós mesmas voos que ainda não podemos dar. Tenho observado que, com paciência e com ternura, sendo compassiva comigo, tiro o peso que a ansiedade pelos novos voos coloca nesses momentos.
Tal qual é conosco, a lagarta também não tem controle algum sobre o que acontece. Quando a vida sinaliza que é chegada a hora da mudança, da metamorfose, não há como impedir, segurar, voltar atrás. Ela simplesmente acontece.
Outro fato interessantíssimo é como a lagarta não resiste, se entrega e coopera com a mudança em curso. Nesse momento, ela imediatamente para de comer e passa a procurar o lugar onde vai fazer a metamorfose, que deve ser alto o suficiente para lhe permitir esticar as asas e secá-las antes de alçar voos.
Eu relaciono essa fase, que se chama wandering, com aquela etapa em que, movidas por um desconforto e ainda sem conseguir nomear e reconhecer a mudança que nos atravessa, passamos a buscar algo que faça sentido para o que experienciamos e vivemos.
Ao contrário do que alguns desinformados dizem por aí, as lagartas não ficam mais pesadas e nem sentem dor nesse momento. Pelo contrário, me diz Guilherme: elas não só param de comer, como andam muito em busca de um lugar alto para se pendurar e se metamorfosear.
E aí, uma outra bela lição ela me dá.
Sabendo que vai viver esse processo de metamorfose, a lagarta faz uma limpeza.
“Antes de se pendurar, a lagarta vomita como uma forma de se limpar por dentro para facilitar o processo de reorganização interna”, conta meu amigo.
A lagarta coloca pra fora o que é desnecessário e ruim para poder se metamorfosear. Ela abre mão da identidade que carregou até ali sem saber exatamente o que virá pela frente e no que vai se transformar.
MEMÓRIAS QUE FICAM
Após essa etapa, a lagarta gruda o fio de seda e despe a própria pele, empurrando-a em direção aos pés. Nesse vídeo, você pode conferir esse momento do processo.
Como quem sai de um saco de dormir, ela vai deixando sua pele de lagarta para trás e formando a crisálida, que terá a cor compatível com o lugar escolhido por ela. Sabendo que vai ficar imóvel e vulnerável, a lagarta tenta se camuflar e, assim, se proteger de predadores.
Fico aqui pensando no quanto também eu necessito me recolher, silenciar e não me expor em demasiado, enquanto um processo de mudança se desdobra em mim. Talvez meu propósito seja o mesmo da lagarta: evitar predadores que aniquilem a transformação em curso ou alguma parte minha no processo.
Mas a estrela máxima da metamorfose, para mim, vem agora.
Feito tudo isso, a lagarta se liquefaz. Ela vira uma espécie de caldo, mantendo apenas algumas estruturas essenciais e também as memórias dos seus dias de lagarta. Pesquisas mostram que as borboletas guardam as memórias dessa fase, me conta Guilherme.
“O que se sabe indica que, apesar dessa transformação radical durante a metamorfose, as memórias perduram. Elas lembram, sim. E mais ainda, elas guardam os traumas que viveram como lagartas. Fizeram um experimento onde as lagartas levavam choque quando entravam em contato com um cheiro específico. As adultas, depois de fazer a metamorfose, evitavam esse cheiro! Elas associavam o cheiro com o choque.”
Fico fascinada ao perceber a semelhança com os nossos processos de mudança. Assim como as lagartas, antes que a transformação final aconteça, precisamos mudar a nossa consciência. E tal qual elas, guardamos as memórias e os traumas vividos. Ressignificamos, mas não esquecemos.
Nessa altura da conversa, eu já estava embasbacada e empolgada no grau máximo. Mal sabia eu que ainda tinha mais por vir.
QUE PERSEVERANÇA!
Existem cerca de 18 mil espécies de borboletas no mundo. E cada uma delas tem seu próprio tempo de transformação. Assim como nós.
Para que a metamorfose aconteça, cada borboletinha precisa de um número específico de dias de sol, que não é igual para todas, já que isso varia de acordo com a espécie e com o lugar onde ela vive. Olha a influência do meio impactando a mudança individual, aí!
O que também varia conforme a espécie é a longevidade das borboletas, me explica Guilherme. Há as que vivenciam todo esse ciclo num período de até quatro meses. E, as mais longevas, o fazem no período de um ano.
Imagine, você, que tem lagarta que vive essa trabalheira toda para voar por um mês somente, antes de se despedir de sua efêmera vida como borboleta. E há o caso de uma mariposa em que esse período é ainda mais curto!
Mas, Lila, o que mariposa tem a ver com borboletas?
Explico: elas passam por um processo de metamorfose exatamente igual ao das sua colegas coloridas. E, por isso, trago o caso da Artic Woolly Bear Moth, uma mariposa que existe no Ártico.
Essa mariposa leva até sete anos para fazer seu processo de metamorfose, congelando e hibernando durante o inverno, sem morrer. Isso acontece, me diz Guilherme, porque lá tem menos sol e pouca comida. Mais fascinante, ainda, é que ela vive todo esse tempo de transformação para ter uma única semaninha de vida como adulta.
Sim! Sete anos de metamorfose para esticar suas asas de mariposa, voar um pouco por aí, transar, fecundar e colocar seus ovos e morrer em sete dias. Isso que é ser movida e guiada pela vida e não pela morte, como é a sociedade de dominação patriarcal.
E que perseverança! Que capacidade a lagarta tem de confiar na promessa da sua visão, do seu sonho. Admiro muito.
PERRENHAS
Mas nem tudo são cores, amores e boas lições. Assim como acontece com a espécie Homo sapiens, também no mundo das borboletas encontramos exemplares do tipo babaca entre os machos.
Em seu doutorado, Guilherme estudou a espécie Euryades corethrus. O macho dessa espécie tem uma estrutura especial chamada Sphragis, que é tipo um cinto de castidade. E adivinha? Quando ele copula com a fêmea, ele trata de colocar o Sphragis nela, para evitar que ela tenha ovos fecundados por outros machos.
Vem do universo das libélulas um bom exemplo de como lidar com machos babacas: a fêmea da espécie Aeshna juncea se faz de morta (literalmente) para que o macho não lhe atormente
Em entrevista publicada na revista New Scientist em 2017, o pesquisador Rassim Khelifa conta ter visto, durante uma expedição a campo, uma fêmea mergulhar no chão e ficar imóvel de costas, se fingindo de morta, ao ser perseguida por um macho. Assim que o indesejado pretendente voou para longe, a fêmea decolou lépida e leve.
Depois de presenciar o episódio, o pesquisador acabou estudando o curioso comportamento dessa espécie e descobriu que essa fêmea faz isso para proteger a si. Um único encontro sexual com um macho é suficiente para fertilizar todos os seus óvulos. E ela pode danificar seu trato reprodutivo se copular novamente.
Gostaria de dizer que essa estratégia funciona para nós. Mas sabendo que mulheres anestesiadas, desacordadas ou até mesmo mortas são violadas, imagino que não funcione tão bem assim. Infelizmente.
PORQUE NÓS SOMOS
Voltando às borboletas, independente de espécie ou de longevidade, comum a todas está o fato de que as borboletas vivem a maior parte do tempo como lagartas. A borboleta que tanto amamos é a lagarta em sua vida adulta, madura. E a lagarta, que quase sempre olhamos com desdém, é a borboleta na fase jovem.
“Geralmente, as pessoas acham lindas as borboletas, mas odeiam as lagartas. Elas esquecem de fazer a conexão de que precisamos das lagartas para que tenhamos as borboletas”, pontua Guilherme.
Concordo.
Esquecemos isso em relação a nós mesmas, também, né? Olhando para muitos perfis nas redes sociais, temos a impressão de que todo mundo já nasce borboleta e que nunca se foi lagarta na vida. E, se fui, já esqueci, como se diz por aí.
“The caterpillar does all the work but the butterfly gets all the press” (algo como: a lagarta faz todo o trabalho, mas a borboleta recebe toda a cobertura da mídia), disse o comediante George Carlin.
E não é?
A borboleta e a lagarta, no entanto, parecem alheias a essa nossa mania de comparação. Por tudo o que Guilherme me contou naquela tarde pré pandêmica de fevereiro, elas estão muito mais conectadas à ideia de que uma só existe graças a outra. Ou “eu sou, porque nós somos”.
Encantada, admiro e aprendo mais essa lição de humildade e visão com elas. É graças à dedicação silenciosa e fora dos holofotes da lagarta que podemos nos sensibilizar e encantar com os voos coloridos das borboletas em nossos dias.
MULHERES E SEUS PODERES DE TRANSFORMAÇÃO
Como o assunto aqui é borboletas e lagartas, trago hoje um projeto bacana de Ana Rita Mayer e sua Lagarta Criações: o baralho Mulheres e seus poderes de transformação, um queridinho que inspira muito meu processo criativo.
Cada uma das 42 cartas desse oráculo estampa uma força, uma qualidade, atribuída a mulher que desafiou as regras sociais de seu tempo. No livreto que acompanha as cartas, lemos uma breve biografia de cada uma dessas mulheres, junto com uma reflexão sobre a força de transformação a ela associada.
Todas as manhãs, escolho duas cartas e reflito sobre a qualidade que elas me convidam a olhar em mim ou em minhas ações. Depois, disponho as cartas na mesa de trabalho, onde possa vê-las, para lembrar dessas qualidades ao longo do dia. Fazer isso tem instigado ótimos insights por aqui!
Conheci esse oráculo através da Silvia Marcuzzo, outra mulher dona de força transformadora, e logo me apaixonei por essas cartas, tão cheias de histórias de mulheres potentes e inspiração.
Em seu perfil no instagram, Ana conta que criou esse oráculo no final de 2017 para presentear sua irmã mais nova, com então 13 anos, que começava a lhe fazer perguntas sobre feminismo. Com o desejo de que sua irmã pudesse conhecer e se inspirar na história dessas mulheres, Ana criou o baralho. E ganhamos todas uma oportunidade de reconhecermos em nós essas forças transformadoras.
PS DA LILA
Quando eu estava finalizando a newsletter, recebi duas músicas da Nádia Lopes, outra mulher potência, que me fizeram pensar no que compartilhei aqui. E deixo para você, finalizando a prosa de hoje.
Por hoje, é isso.
Obrigada por estar aqui comigo. Fico bem feliz em poder compartilhar e conversar com você o que ando pesquisando ou vem me atravessando.
Até a próxima semana!
Com afeto,
Lila








Que delícia ler você!
Lila, mais uma vez me fazendo chorar, que reflexão linda e potente e, engraçado como o universo, as deusas, os orixas, de alguma forma, conecta a gente. Sou uma capricorniana bastante controladora (lutando para lidar com isso), no entanto, com a Yoga eu comecei a deixar um pouco mais a vida fluir porque, até então, qualquer adversidade da vida eu já ficava toda pensando que era o fim do mundo, que nada iria melhorar que eu havia perdido o controle, porém, assim como no Ashtanga Yoga nem sempre a prática é perfeita, nem sempre você "mantém" os asanas que havia ganhado, a vida também é assim "se rasgar e se remendar e se rasgar novamente" e acho que tem bastante ligação com o que você coloca sobre as borboletas, que passam por pressões e sofrimentos diversos até se metamorfosear em uma linda borboleta. No fim o que precisamos é confiar no processo, não se identificar com a mente e perceber que o processo de mudança, por vezes, exige e perpassa o sofrimento, o lidar com nossas sombras e acho que isso é difícil e lindo ao mesmo tempo.